
Quando
A Verdade Conheceu A Mentira
crônica
revisão Nataniel Castro Nunez
editoração
Ferdinando Blun
edição
hh
Nesses tempos em
que a Verdade tem várias interpretações de acordo com quem a observada e por qual
ângulo, ou se a prefere assim ou assado. Daí as tais ‘Meias Verdades’ ou a
mais patética ‘Cada um tem a sua
Verdade'... mas, são todas mentiras vestidas de verdade e por vezes
aceitas como absolutas, como por exemplo, uma reta-curva. Pode?
Sim, na matemática, em tese, mas na vida real, reta-curva é
uma mentira equidistante da verdade. É curva ou é reta, porque uma reta não faz
curva, se o fizesse chamar-se-ia outra coisa que não fosse reta... ou seja, dois + dois é quatro.
Não cinco ou outro resultado, mas quatro.
É um dilema
humano desde os primórdios. A Mentira já aparece em contos tribais e rituais
místicos antes da escrita e mesmo antes da roda, protagonizados por inúmeros personagens, humanos e
não humanos, como a serpente da Bíblia que na vida real também usa da mentira
para sobreviver. A serpente se disfarça com as cores disponíveis no seu meio
ambiente, mentindo que é folhagens e ramos para pegar desprevenidas suas presas,
assim como outros no mundo animal, e infelizmente, na humanidade também. Infelizmente,
porque no caso dos animais é uma questão de sobrevivência aportada na evolução,
mas no Humano, pode ser pela Vaidade, Paixão e pela Ambição, pilares da Mentira,
mas que às vezes podem também sustentarem por
efêmeros períodos a Verdade.
O alerta chega às pessoas, à humanidade, há milênios e ao que parece pouca gente
percebeu os sinais e quase ninguém coloca a Verdade na sua dose diária de
atitudes pela vida. A Vaidade vem bem antes e depois a mentira...
A Verdade contra
a Mentira é um assunto tão pertinente nos dias de hoje que pessoas de
discursos opostos acabam agindo do mesmo modo. Onde está a mentira então? Como
as palavras podem ter tantos significados diferentes e até antagônicos nas bocas
das mesmas pessoas e com iguais sentidos nas frases de opositores? Como é
possível que se diga e se prometa tantas coisas com palavras que não dizem nada,
ao mesmo tempo que prometem tudo e não fazem nada do que parece que disseram que
fariam?
Para tentarmos entender essa milenar estratégia de enganar visitaremos três
versões de um conto judaico que trata dessa peleja. Três, das muitas que vicejam
por aí, de um conto tão antigo quanto o próprio dilema da Verdade contra a
Mentira.
O primeiro nos
conta que a Verdade e a Mentira se conheceram um dia. A Mentira diz à Verdade:
‘está muito bonito hoje’.
A Verdade olha à volta, olha o céu, o dia está realmente bonito. A
Verdade vê que nisso a Mentira não mentiu. Seguiram juntas até chegarem a um
poço onde a Mentira diz à Verdade:
‘A água está muito agradável,
vamos tomar banho juntas?’
A Verdade mais uma vez desconfiada põe a pontinha do pé na
água, é, realmente está agradável e refrescante. Decide tirar suas roupas,
entrar no poço e nadar onde a Mentira mais do que depressa já se havia despido e
se jogado fazendo grande alarde de como a água estava maravilhosa.
De repente, a Mentira sai da água, se veste com as roupas da Verdade e foge. A
Verdade fica furiosa sai do poço procurando por todos os lados encontrar a
Mentira e recuperar suas roupas. Mas a essa altura, a Mentira já andava
longe.
O mundo vendo a Verdade nua vira o olhar com desprezo e raiva.
A pobre Verdade volta para o poço e desaparece para sempre escondendo a sua
vergonha.
Desde então, a Mentira viaja pelo mundo vestida como a Verdade,
satisfazendo todos que não querem em nenhuma hipótese aceitar a Verdade, muito
menos, nua.
Outra versão nos conta um final um pouco diferente.
A
Mentira chegou à Verdade sempre sorridente e festiva, Bom dia dona Verdade!
E a Verdade foi
comprovar se realmente era um bom dia. Era realmente um lindo dia.
—
Bom dia, senhora Mentira.
—
Está muito quente hoje... – continuou a Mentira.
De fato, a Verdade
vendo que a Mentira foi sincera, relaxou-se. A Mentira, então, a convidou para se
banharem em um rio ali perto. Tirou a roupa, pulou na água. — Nó!! que delícia!
A Verdade sem hesitar
tirou suas roupas e pulou no rio, a Mentira na mesma hora saiu da água,
vestiu-se com as roupas da Verdade e saiu correndo.
Vendo que foi enganada, a Verdade decepcionada e triste, recusou-se a vestir as
roupas da Mentira e saiu desnuda caminhando de cabeça erguida pelas ruas do
mundo.
A Mentira, vestida de
Verdade, fez sucesso. Foi ovacionada e glorificada por todo o mundo. Ganhou
seguidores, devotos, fiéis, tietes e bilhões de curtidas por todos os
continentes.
Enquanto que a Verdade nua e crua tornou-se horrenda, abjeta, imbecilizada e
inaceitável.
Foi violentada,
brutalizada e ridicularizada.
Tratada como
grotesca, antissocial e desequilibrada foi expulsa das cortes, dos tribunais,
dos púlpitos, dos palcos, dos palanques, dos altares, dos lugares ricos e dos
lugares pobres, e por fim, foi expulsa dos corações.
Então, chegamos a essa última versão da Verdade contra a
Mentira e da Mentira contra a Verdade.
Num belo dia,
depois de muitos e muitos anos de exílio, a Verdade decidiu visitar a
humanidade, sem roupa e sem adornos, tão nua e descoberta como uma verdade pode
ser, para ver o que tinha melhorado nas pessoas.
Todos ao vê-la, de imediato e como antes, lhe viravam as
costas de vergonha, de ódio, de nojo, ou de medo. O mundo queria que a Verdade
continuasse bem longe e enterrada.
Ninguém lhe desejava boas-vindas.
Ninguém deixava que entrasse em suas casas.
Ninguém lhe oferecia um copo d’água.
Assim, a Verdade percorreu os confins da Terra sempre
criticada e rejeitada.
Porém, numa tardinha bem ao pôr do sol, abalada e triste,
encontrou a Mentira passeando alegremente em belos trajes esvoaçantes e
brilhantes com vistosas joias e a face maravilhosamente maquiada numa elegância
de dar gosto. Vendo a Verdade naquela situação quis saber o que se passava.
— Verdade,
amiga! Por que você está tão abatida?
— Porque me
sinto feia e antipática. As pessoas me evitam e me xingam tanto!
— Que absurdo! –
gargalhou a Mentira. — Não é por isso que as pessoas te evitam. Toma aqui. Veste
minhas belas roupas e verás o que acontece!
Então, a Verdade
se montou com as lindas vestes da Mentira. Como num passe de mágica, da noite
para o dia, passou a ser bem-vinda e festejada em todos os lugares.
Agora é aclamada e respeitada. As pessoas se curvam ante a
Verdade vestida de mentiras.
É recebida por reis e pelo clero, juristas, delegados,
generais, príncipes e princesas, amarelos e pretos, vermelhos, brancos e azuis.
Todos passaram a adorá-la e a defendê-la com a própria vida se fosse preciso.
E a Verdade voltou aos mesmos rincões da Terra por onde
antes fora desprezada e expulsa, só que agora travestida de ‘meias verdades’ ou
‘umas pequenas mentiras inofensivas’ foi abraçada e protegida. Andou por
pocilgas, senzalas, favelas, meretrícios, academias, templos, catedrais e
palácios suntuosos sempre bem recebida e amada.
Tempos depois a
Verdade, saudosa dos tempos em que era apenas e só a pura verdade, decidiu visitar o mesmo local onde um dia conhecera a Mentira,
então, se despiu e
se banhou naquelas mesmas águas límpidas e deliciosas por onde eternamente dia
após dias correm pelos rios, abastecem os poços e deságuam no oceano.
A Verdade ficou ali por horas sentada na margem do grande
rio, ouvindo os sons dos pássaros, do vento e do correr das águas a lhe tocarem
mansas e refrescantes o colo, as pernas e os seus pés. Em silêncio, pensativa,
cabeça baixa, ar melancólico rabiscava com os dedos a superfície da água,
perdida em suas reflexões.
De repente ouviu um alarido de vozes, risadas e gritinhos, música e dança. Era a
Mentira, sempre linda, bem vestida e sorridente que chegava com seus seguidores
que nunca a abandonavam. Andavam sempre com a Mentira aonde quer que fossem. E
tudo sempre muito alegre, colorido, festivo, explicado e justificado em perfeita
ordem. Dar explicações longas e extenuantes, dar belas e barulhentas festas, era
com a Mentira. Ninguém nunca fez ou faria melhor.
— Sabe o que
agora andam falando sobre mim por aí? – disse a Mentira à Verdade erguendo os
braços ordenando ao seu séquito que ficasse quieto e em silêncio.
A Verdade estranhou aquilo. A Mentira sempre fora muito
educada e gentil. Dizia sempre ‘Bom dia’ ‘Boa tarde’ Boa Noite’ ‘Por obséquio’
‘Obrigada’ e ‘Com licença’. O que acontecera para que esquecesse os bons modos?
— O que andam
dizendo?
— Cantam por aí
em versos e prosas que eu tenho as pernas curtas! Você acredita nisso? Olha para
as minhas pernas!
A Verdade olhou as pernas da Mentira. Eram lindas e saudáveis.
Maravilhosas.
— Mas por que
estão dizendo isso?
— Posso te
contar um segredo? – sorriu maliciosa a Mentira. — Eu mesma espalhei essa!
kkkkk
A Verdade a olhou espantada. — Mas por que você faria uma
coisa dessas consigo mesma?
— Para os tolos
e ingênuos ouvirem dos maldosos e canalhas. Eles têm que acreditar que eu não
posso ir longe!! kkkkkkkk
A Verdade baixou os olhos mirando a água com tristeza.
— Mas, e você? –
perguntou a Mentira. — Por que ainda tem esse semblante taciturno? Esse olhar
caído? Não é hoje tão amada e bem quista por onde passa? Todos não se ajoelham
perante você e a idolatram como uma deusa? Por que está ainda tão insatisfeita?
Estando mesmo desolada a Verdade se abriu. — É que vestida
com suas roupas eu só atraio um tipo de gente. Eu, a Verdade vestida de
mentiras, só atraio os Tolos, Ingênuos, Malfeitores e Canalhas! Ou seja, vestida
com suas roupas eu só atraio os bobos e a escória!
— E o que isso
importa, minha querida? – disse a Mentira deslumbrada com o seu próprio sucesso.
— São esses aí que me dão o poder! São esses que se arrastam em multidões atrás
de mim! São esses que me dão ouro, prata e diamantes e me fazem ser a Rainha das Rainhas, a Deusa das Deusas.
A Deusa top das galáxias!!!
— Mas é
justamente esse o tipo de gente que eu quero evitar! – arquejou assombrada com a
insanidade da Mentira. — É essa gente que eu quero
desmascarar e impedir que com suas atitudes continuem causando tanto mal! Sinto muito Mentira, mas não posso continuar usando as suas roupas!
— Pense bem no
que você vai fazer! – ameaçou a Mentira.
— Já me decidi!
De hoje em diante nunca mais vestirei suas roupas! Toma! pode levá-las!
— O quê?!! Sua
Ingrata!! Você vai voltar a ser aquela coisa
insignificante que era antes de me conhecer! Vai voltar a ser escorraçada em
todo lugar e por todo o mundo! Aí quando você estiver de novo no fundo do poço,
não me venha procurar porque eu não te ajudarei! Nunca mais!!
Assim, a Verdade, após se lavar em águas cristalinas,
abandonou de vez as roupas da Mentira e saiu pelo mundo sem se envergonhar de
sua nudez, pois a nudez é a verdade natural do seu ser. Ela não mais se via
infeliz, ridícula ou tola, se sentia viva e forte.
Desde então, a Verdade, com seu sorriso sereno vaga pelo mundo permitindo se
encontrar pelas pessoas de atitude honrada e que prezam a Justiça.
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a composição da adequação de hh à censura de nús no Facebook e outras mídias, sobre
a obra "La Vague - 1896 William-Adolphe Bouguereau"
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